27/08/2008 17:17
Histórias do Nosso Futebol - O Craque que Casou à Força!
Ele era alto, louro e bonitão. Digo era porque infelizmente já faleceu. Encantava as mulheres, mesma naquela época em que tudo que é permitido nos dias de hoje, era pecado.
Vivia bem, jogava num grande clube do Rio. Vez por outra era chamado para defender a seleção. Quer dizer, não era um qualquer. Não bebia, não fumava, mas vivia na noite cercado por algumas das mulheres mais lindas do Rio de Janeiro.
Nunca chegava tarde para treinar, ao contrário era dos primeiros. Entrava no estacionamento com seu carro conversível branco. Capota daquelas automáticas, o que era uma incrível novidade para a época. A antena do rádio embutida subia ao toque de um botão. Mais uma incrível novidade. E ficava ali ouvindo suas músicas prediletas até que o avisassem que seu material de treino já estava pronto.
Apesar de infelizmente ele não estar mais entre nós vamos preservar sua família e chamá-lo de Amado!
Amado era simpático, ganhava bem, tinha uma vida que qualquer um pediu a Deus, se relacionava bem com a imprensa. Nunca vi Amado discutindo com ninguém. As vezes a gente notava que um ou outro jogador tinha uma ponta de inveja, mas coisa passageira.
Então o tempo corria, Amado fazia um pé de meia comprando terrenos, casas, apartamentos, o que era elogiado por sua família. Esse era o primeiro mistério da vida de Amado: como ele sendo louro, era filho de uma família negra?
O pai um antigo meio campo desses clássicos, matava a bola com uma categoria que só vendo. Ele subia, tocava na bola com a ponta da chuteira, que parecia ficar grudada no seu pé. Quando descia ela ficava ali dominada, submissa, quietinha, garantiam que nem uma dessas ventanias tropicais poderia tirar do lugar.
A mãe: uma senhora caridosa, religiosa, respeitada por uma vasta comunidade, teria iniciado sua vida na famosa favela do Pinto, que ficava onde hoje é a chamada Selva de Pedra, entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o bairro do Leblon.
O casal tinha um filho, negro, jogador de bola também, talento mediano.
De onde teria vindo esse louro?
O outro mistério é que Amado nunca tinha freqüentado o banco de uma escola, mas dava entrevistas sem cometer um erro de português, o que na época, cá entre nos, era raro.
Todo mundo tentava arrancar essa história de Amado, que sorria e desviava do assunto.
Essas perguntas sem respostas alimentavam o mistério em torno de Amado. Ninguém se arriscava sequer a pensar que a mãe de Amado pudesse ter tido um deslize na juventude. Não aquela senhora.
Um dia, voltando de São Conrado onde costumava tomar seu suco de laranja depois do treino, Amado encostou seu carro no posto 6, em Copacabana. Saltou, cumprimentou alguns amigos, sem prestar muita atenção com quem estava falando.
Seus olhos estavam fixos numa linda morena de biquíni, esplendorosa, tomando Sol, em pé ao lado de sua barraca.
Como quem não quer nada Amado foi se chegando e começou uma conversa com a linda morena que nunca mais teve fim.
Pela primeira vez na vida Amado, o mulherengo contumaz, conhecia o que era o amor, a paixão. Cada segundo longe daquela mulher maravilhosa parecia para ele, uma eternidade.
Vivia com Rose Marie, era o nome dela, para cima e para baixo. Ela parecia corresponder. Os dois eram vistos jantando olhos nos olhos, nos melhores restaurantes do Rio de Janeiro. Dizem até que uma vez Amado quase chegou às vias de fato com um garçom que não chamou Rose Marie de senhora e a tratou por você.
Esse amor maravilhoso virou manchete de jornal, vivia nas colunas sociais, Ibrahim Sued cansou de dar furo de reportagem convidando os dois para passar por seu restaurante no final do Leblon.
Até que um dia, um amigo mais chegado, Direitinho, resolveu avisar Amado:
- Amado, escuta, você me considera seu amigo?
- Mais do que meu amigo, você é meu irmão! respondeu Amado.
- Ótimo continuou Direitinho porque o que eu vou dizer não é nada agradável!
- Ah, deixa de bobagem, fala logo, cara!
- Escuta Amado, não sei como dizer, mas a Rose Marie não é quem você pensa que é!
Amado empalideceu. Não sabia o que dizer, ou como agir:
- O que você está falando?
- Seguinte: a Rose Marie já passou pelas mãos de toda a rapaziada da praia. Ela não presta, Amado. Ela é danada... e Direitinho só ouviu o barulho de uma cadeira caindo, quando olhou Amado já estava longe, correndo feito um desesperado.
No dia seguinte, com boca seca de uma ressaca terrível, Amado ligou para Direitinho:
- Aquilo não foi verdade, não é, cara?
- Olha, por favor, somos amigos há tanto tempo. Gosto de você de graça, mas eu tinha que te avisar. Eu soube que você ia casar!
Amado quase chorando, perguntou:
- Mas você pode provar?
- Olha, Amado, pelo amor de Deus, mas o que você acha que ela faz quando você está treinando ou concentrado?
- Não sei gritou Amado o que ela faz?
- Levanta daí e vamos até a praia agora chamou Direitinho.
Os dois se encontraram na esquina, foram a pé para que o carro conversível de Amado não chamasse a atenção. Quando chegaram a beira da areia, lá estava Rose Marie deitada em cima de Vivaldo, que a beijava loucamente.
Amado pensou que ia morrer. Sentiu as pernas bambas. Foi amparado por Direitinho, que o levou até o bar do seu João, um dos chopes mais famosos do Rio.
A primeira providência de Amado assim que se recuperou, foi telefonar para Rose Marie e acabar com ela. Cancelar o casamento e tudo o mais.
Do outro lado, Rose Marie só perguntava:
- Mas por que? O que foi que eu fiz?
E o Amado feito um robô repetia:
- Você sabe o que você fez, você sabe!
Passou uma semana e uma noite a campainha do apartamento de Amado tocou. Na porta estava aquele que Amado brincava chamando de sogrão que também vou evitar de citar o nome e a profissão:
- Desculpa, seu Plácido, eu estava juntando força para ir conversar com o senhor!
- Não, precisa não, filho disse Plácido quase com um sorriso no rosto basta você casar com a Rose Marie que está tudo resolvido.
- Que é isso, seu Plácido. Não posso casar com sua filha...
Foi quando Amado viu a mão enorme do Plácido crescer em direção ao
seu peito e a outra abrindo o paletó:
- Vai casar, sim senhor. Vai casar porque se não casar nunca mais vai jogar futebol. Você está vendo esse 38? É uma bala em cada joelho e você fica aleijado para o resto da vida. O que acontecer depois do casamento pouco me importa, eu só não quero que minha filha seja motivo de piada.
Amado casou. O casamento durou uma semana. O divorcio custou metade do que Amado tinha juntado na carreira.
Nunca mais Amado foi o mesmo.
Nunca mais falou com Direitinho.
Nunca mais olhou para Rose Marie.
Nem lhe passou pela cabeça uma vingança contra seu Plácido.
Ele pediu ao clube para ter seu passe negociado com um time da Suíça. Quando voltou estava tuberculoso, morreu quase sozinho.
enviada por Michel Laurence
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